Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

Paulo Henriques Britto

II

As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa –
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)

Do livro Macau, de Paulo Henriques Britto.

Paulo Fernando Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de dezembro de 1951. Residiu sempre no Rio de Janeiro. É professor na PUC-Rio, desde 1978, além de tradutor profissional, poeta e ensaísta.
Foi contemplado com os prêmios Portugal Telecom de Literatura Brasileira, pela obra Macau, concedido pela Portugal Telecom em 9 de novembro de 2004 e com o prêmio Alceu Amoroso Lima - Poesia 2004, também pela obra Macau.
É um poeta de talento. Seus poemas instigam o raciocínio e aguçam o desejo pela poesia, o que é raro em poetas da atualidade.

1 comentários:

Gisele disse...

Adorei este poema, não conhecia este autor...descobrindo novas obras com vc...