quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ferreira Gullar

artigo de Ferreira Gullar publicado domingo, 15 de novembro, na "Ilustrada", da Folha de São Paulo:



Retrocesso à vista


O FIM DA utopia marxista, que apostava na derrota do capitalismo, deu lugar, na América Latina, ao neopopulismo que, fazendo-se passar por socialista, explora, em vez da contradição classe operária versus burguesia, a oposição entre pobres e ricos. Se, no caso anterior, os sindicatos funcionavam como instrumento de organização e mobilização do operariado para a tomada revolucionária do poder, agora constituem uma burocracia de neopelegos, que passaram a ocupar posições estratégicas no aparelho de Estado e na máquina política.

Assim, pressionam o governo e os patrões para que façam pequenas concessões aos trabalhadores, com a condição de mantê-los quietos, enquanto eles, os neopelegos, enriquecem a se fortalecem politicamente. A ascensão de Lula à Presidência da República foi resultado desse jogo e, ao mesmo tempo, um salto qualitativo para a elite sindicalista.

As consequências disso para a democracia brasileira podem ser as mais desastrosas, como procurou mostrar Fernando Henrique Cardoso, num artigo recente, intitulado "Para onde vamos?"

O neopopulismo nada tem de revolucionário, como alardeia Hugo Chávez, travestido de líder esquerdista, mas que, na verdade, se apoia no voto do venezuelano pobre. Sustentado pelos vultosos rendimentos do petróleo, mantém programas sociais assistencialistas, que lhe garantem vasta popularidade.

Aparece, diante do povão desinformado, como seu providencial protetor, que o defende de um lobo mau chamado Estados Unidos. Seu verdadeiro projeto é manter-se indefinidamente no poder e, para consegui-lo, fez o Congresso aprovar a reeleição ilimitada.

Lula tentou seguir o mesmo caminho, mas teve sua pretensão rejeitada numa pesquisa de opinião. Precavido, mudou de tática e terminou adotando a candidatura de Dilma como a solução possível.

Invenção sua, se eleita, ela terá que fazer dele seu sucessor em 2014, e, assim, caso isso ocorra, teríamos mais oito anos de Lula na Presidência da República, o que somaria, no total, 20 anos de lulismo. Ou mais, muito mais, porque pode não parar aí, já que, àquela altura, as bases do neopeleguismo e do neopopulismo estariam amplamente assentadas em todo o país.

A ameaça é que, se já agora ele se rebela contra a ação fiscalizadora do Tribunal de Contas da União e pretende calar a imprensa, ou seja, não admite que ninguém critique ou cerceie suas decisões de governo, imaginem o que não fará durante tantos anos no poder.

A história tanto anda para frente como pode andar para trás. O propósito de, chegado ao poder, não sair mais, faz parte da ideologia petista, como deixou claro José Dirceu, em visita a Madri, logo após a posse de Lula, em 2003, ao afirmar que o projeto deles era ficar 20 anos no poder. Sim, porque, ao contrário dos outros partidos "burgueses", o partido dito revolucionário vem para salvar o povo e mudar o rumo da história. Logo, não pode se submeter às regras democráticas da alternância no poder. Se é verdade que, a esta altura, o petismo já abriu mão do revolucionarismo, não admite perder as posições conquistadas.

Lula, muito esperto, logo compreendeu que o Brasil não é a Venezuela. Sabe que, embora tenha maioria no Congresso, este jamais lhe concederia um terceiro mandato e muito menos a possibilidade de reeleição ilimitada. Por isso, adotou a tática de conseguir um mandato tampão para Dilma, enquanto, às carreiras, procura implantar o PAC e aparecer, diante da nação, como um presidente empreendedor, que visa elevar o país à condição de grande potência. Assim age Chávez e assim agiu nossa ditadura militar.

A fórmula é sempre aquela: inimigo dos poderosos e amigo dos pobres, defensor dos negros e mulatos, inimigo dos brancos de olhos azuis. Isso transparece, a todo momento, em suas declarações e discursos. Não faz muito tempo, falando aos catadores de lixo, criticou os ricos que, deliberadamente, sujam a cidade para que os lixeiros, humilhados por eles, a limpem.

É um presidente da República que, sem qualquer escrúpulo, faz questão de instigar ressentimentos e conflitos entre os cidadãos, jogar uns contra os outros. Isso no discurso, porque, de fato, usa a máquina do Estado para favorecer grandes empresas nacionais e estrangeiras.

O artigo de Fernando Henrique Cardoso chamou atenção para o perigo que o país corre. Em vez de desautorizá-lo, os formadores de opinião deveriam preocupar-se com o interesse maior da sociedade. É de se esperar, também, que Serra e Aécio assumam a responsabilidade que lhes cabe.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A poesia é...

O contrário do que é “ensinado” em boa parte das escolinhas de letras. O contrário do que pode ser encontrado nas prateleiras das livrarias. O contrário do que escrevem 99% dos atuais cantautores de MPB. O contrário do que se lê na maioria das nove ou dezessete revistas ditas de literatura que circulam por aí. O contrário do que mofa nas estantes das bibliotecas públicas e centros culturais. O contrário do conformismo generalizado – que, com os blogues, só fez conquistar maior visibilidade. O contrário disso que publicamos, o mais das vezes, por simples vaidade, e que só mesmo nossos amigos e familiares fingem ler com algum interesse.

Ricardo Aleixo, poeta

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CAPRICHOS E REQUINTES

Na tarde molhada de pintado arco-íris
um homem chega ao seu chão
recebido com requintes de pão de queijo
e café em bule esmaltado.

Ali louva o amor e o roçado.
Admira as rãzinhas, centenas, nas poças de chuva,
observa, encantado, a caixa do marimbondo-tatu e
uma quaresmeira que, amadrinhada com um ipê roxo,
somente grita suas flores em agosto.
Caprichos da natureza.

Ali onde angu com feijão, sabe-se, é bom para nenê comer,
mas que o que mesmo faz criança crescer
é o tempo.

Ali chega com a goela espremida e
agradece todos os dias por não mais
precisar ir embora amanhã e
nem qualquer outro dia.

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bastardos inglórios

Zelinha comentou comigo:
"_ O novo filme do Brad Pit é do Quentin Tarantino."

Eu:
"_ Não. O novo filme do Quentin Tarantino é com o Brad Pit."


"Bastardos inglórios já nasceu clássico" Arnaldo Jabor

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ótimo conselho de Francisco Carvalho

RECATO

Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.
Que as traças o devorem sem deixar
o mais débil vestígio de tua humanidade.

O que pensas do amor, da vida e da morte
não interessa a ninguém.
Todos estão demasiadamente distraídos
e preocupados com as precárias
liberdades do corpo e as metamorfoses da alma.

Digam o que disserem os graves e os cínicos
os bêbados e os bastardos
os que te cumprimentam todas as manhãs
com mentirosa cordialidade...
— Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Canção

Chão de barro
coração.
Enxada na mão
Nosso pai!

Criança é começo.

Matuto olhando o luar
aluar.
Galos no terreiro
Teu sorriso!

Crescer é canção.

Uma flor para teu olhar
olhar.
Um jacarandá
O fim!

Corpo é só corpo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Trindade

Outrora estive nas longínquas tendas.
Sultão... o meu serralho... as bailarinas...
A música das harpas, oferendas...
Alvos sorrisos, bocas coralinas.

Desci de manso, assim como nas lendas,
Do doce Nilo as águas sulfurinas.
No barco azul de vaporosas rendas,
O perfume enebriante das resinas.

Depois... fui me aportando de mansinho;
Desprendeu-se a âncora do barco... e fiz
O meu porto no mar de teu carinho.

Hoje, em meu quarto, tenho paraíso
Nesta trindade que me faz feliz:
A chuva, o meu cachimbo e o teu sorriso.

13 de junho de 1956

Poema do saudoso poeta andrelandense Dr. Pascoal Araújo